O ano de 2013 não começou como Nacif Elias esperava. Em crise, o Flamengo abriu mão do judô e sem a estrutura necessária para continuar treinando o atleta chegou a pensar em migrar para o MMA. Além disso, na seleção brasileira, a situação não era diferente. Nacif
sentia-se desvalorizado na briga olímpica para os Jogos de 2016, no Rio
de Janeiro. Com a nova distribuição de pesos, o meio-médio se sentiu
"forçado" a trocar de categoria, saiu de 81kg para competir nos 90kg, o
que para ele foi uma desvalorização. Em suma, tudo "remava contra" e a
volta para a casa dos pais, no Espírito Santo, ou até o fim da carreira,
parecia o mais provável.
Mas uma "antiga namorada" reapareceu na vida de Nacif. E as Olimpíadas
de 2016, um sonho distante, é agora cada vez mais realidade. De
ascendência libanesa, o judoca, após mais um flerte, que vinha desde o
último ciclo olímpico, não pensou duas vezes: se naturalizou libanês e
no Mundial do Rio de Janeiro, de 26 de agosto a 1º de setembro, já
defenderá a bandeira vermelha e branca dos árabes, como o judoca número 1
do Líbano e no peso que sempre quis, até 81kg.
"A família começou a se ligar mesmo quando comecei a ir para lá. Meu
bisavô morreu, meu pai era muito novo. Houve pouco contato entre eles,
mas meu pai gosta de fazer as comidas típicas, de ver as fotos. Procura
saber tudo do país. Eu nasci para ser campeão, independentemente de
enfrentar um brasileiro ou não" - garante Nacif Elias.
Apesar da naturalização, Nacif explica que tentou até o último instante
seguir lutando pelo Brasil. Nem a tradição da família, que mantém os
costumes libaneses na culinária, aprendida com o bisavô Antenor Elias e
seguida pelo pai Nacif Satlher Elias, o fizeram ceder cedo ao pedido dos
libaneses, onde ele havia disputado os Jogos da Francofonia (dos países
de língua francesa) em 2009.
"Tive oportunidades, mas não o necessário para um atleta de alto nível. A
seleção não visa o que é melhor para alguns atletas e sim os interesses
internos. Eu sou 81kg, e não 90kg. A seleção me boicotou do Grand Slam
do Rio, em 2012. Até hoje não sei os motivos. Dessa forma, resolvi subir
de categoria pois entendi que eles queriam que eu lutasse nesse peso.
Assim, não tive a oportunidade de voltar à categoria onde tenho
condições de ser o melhor do mundo. Ainda que a pesagem seja um dia
antes. Dessa forma, minimiza o problema com a perda de peso."
Infeliz, Nacif era o quinto brasileiro no ranking dos meio-médios
(81kg), liderado pelo hoje número 1 do mundo, o também brasileiro Victor
Penalber. E no peso médio (90kg) vinha também como o quinto do Brasil.
Tiago Camilo é o líder do país.
"Estava muito insatisfeito nos 90kg e não iam me descer. Eu não ia passar
por Severino de novo, quebrando galho sempre. Já passei um ciclo
olímpico (Londres 2012) sendo o Severino do Flávio Canto e do Leandro
Guilheiro. Não queria mais. Fico triste por não representar meu país de
nascimento, mas sei que tentei até o último momento continuar lutando
pelo Brasil. Chegou um momento que financeiramente não dava para me
manter no esporte. Eu vi minha família passando dificuldades para me
manter, com pouco apoio financeiro e com problemas com a Confederação.
Resolvi me transferir para o Líbano, onde trabalho com pessoas que vivem
o mesmo sonho que o meu" - desabafou o lutador.
No Brasil, Nacif tinha dificuldades para se manter no esporte. Fora do
Flamengo, e na seleção brasileira B, ele não recebia salário da
Confederação. Precisava do apoio da família, pagando o deslocamento para
os treinos, suplementação, alimentação, material esportivo e médicos
qualificados.
"Eles (Líbano) têm me apoiado financeiramente, dobrarão toda minha
premiação, me deram quimonos e pagaram minhas inscrições em torneios,
viagens e hotel. Além disso, vão me ajudar mensalmente" - frisou Nacif.
Por fim, o atleta lamentou o sistema atual da seleção brasileira, que, para ele, obriga os atletas a estarem sempre sob pressão.
"O sistema só ajuda quem eles desejam. Poucos atletas conseguem se manter
no judô sem ajuda da família, você sempre tem que depender
financeiramente de um clube. Dessa forma, chegando desgastado nas
competições que irá representar o Brasil, apenas atletas que são
privilegiados pela CBJ tem liberdade de fazer a parte física e técnica
fora dos seus clubes e de lutar apenas as competições que deseja. Quando
fui reclamar por um salário, falaram que eu tinha que estar entre os 22
do ranking mundial e dar graças a Deus que pagavam minha passagem,
hotel e inscrição. Questionei dizendo: 'como vou ficar entre os 22 no
ranking se meus pontos estão zerados e atletas com muitos pontos na
frente lutam as mesmas competições que eu?'. Teoricamente, tenho que ser
um fenômeno e subir ao pódio em todas, pois em um ano pagam apenas três
competições e que eles ainda escolhem, sem consultar a maioria dos
atletas" - finalizou Nacif.
A concorrência é grande para integrar a seleção brasileira de judô.
Atualmente, a equipe é formada por três atletas em cada categoria, que
venceram as seletivas nacionais para chegar até ali. A migração de
judocas para outros países não é tão incomum assim. O coordenador
técnico da Confederação Brasileira (CBJ), Ney Wilson, lembra que a
primeira a trocar de país foi Fabiane Hukuda, em 2009, para defender a
Áustria. Depois disso, nomes como Sérgio Pessoa (Canadá), Taciana Lima
(Guiné-Bissau) e Camila Minakawa (Israel) seguiram o mesmo caminho.
No caso de Nacif, a CBJ o liberou automaticamente, o que permitiu que
ele tivesse condições de lutar imediatamente pelo Líbano e ainda
permaneceu com os pontos no ranking mundial. Quando um país não libera o
atleta, ele tem que ficar dois anos sem lutar até poder defender uma
nova nação e ainda tem seus pontos zerados no ranking. Ney Wilson torce
para que o capixaba tenha sucesso e lembra que essa escolha geralmente é
o caminho mais curto para o sonho olímpico de alguns.
"É obvio que a competitividade é bem menor, principalmente para as
Olimpíadas a vaga fica mais fácil. Ele vai buscar o sonho dele de estar
no Mundial e nos Jogos Olímpicos. O gargalo no Brasil é muito apertado, e
eles acabam fugindo para onde tem um funil mais aberto. Eu torço por
todos. Desejo a ele a maior sorte do mundo. Que ele possa ser mais um
brasileiro a chegar nas Olimpíadas e no Mundial. Só não vou torcer
quando enfrentar um atleta nosso."
Sobre as reclamações de favorecimento de alguns judocas dentro da
seleção brasileira, Ney é taxativo: o investimento varia de acordo com o
desempenho de cada atleta.
"O atleta é quem dita o próprio caminho. O atleta disputa um Open e não
sobe no pódio, ele não se credencia para lutar um Grand Prix. Ele tem
que crescer conforme o trabalho que faz no tatame. É resultado. Não
existe um investimento homogêneo em todos os atletas. O maior exemplo
disso é a (Maria) Portela. Há dois anos ela vem crescendo e no ano
passado chegou a Londres. Não existe nenhum atleta privilegiado na
seleção. Só que o atleta não pode reclamar quando não ganha. Tem que
corresponder no tatame" - rebateu.
Nacif disputou duas competições internacionais pela seleção brasileira
em 2013. Ele ganhou uma medalha de bronze no Open de Budapeste, na
República Tcheca, em fevereiro, e foi eliminado na primeira fase do
Grand Slam de Baku, no Azerbaijão, em maio.
O coordenador técnico nega que a CBJ tenha pedido para Nacif trocar de
categoria, do meio-médio (81kg) para o médio (90kg). Segundo Ney, foi
até uma surpresa, porque o atleta "não conseguia manter o peso para
lutar até 81kg". Ele ainda lembra que Nacif foi convocado para os
treinos específicos por peso que aconteceram em junho no Rio Grande do
Sul e que a Confederação reservou passagem e hospedagem para o capixaba,
que não apareceu e foi repreendido. Ney só lamenta a maneira como
ocorreu a saída.
"O atleta que menos conversou comigo nessas saídas foi ele. Ele não nos
procurou para conversar, para ouvirmos ele. O Nacif é muito mais movido a
emoção. Muitas vezes dá certo... vou torcer" - finalizou.
Fonte: Globoesporte.com
Foto: Arquivo Pessoal

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