Ricardo Henriques (@calhau)
Para ser
bem sincero, o meu momento olímpico é aquele em que o arqueiro paralímpico
catalão Antonio Rebollo lançou uma flecha que acenderia a pira olímpica dos
Jogos de 1992. Não o escolhi para esta série de textos porque acho que para a
minha geração (eu tinha dez anos, na época) era uma escolha óbvia, assim como a
lágrima do ursinho Misha, o mascote de Moscou-1980, deve ser para aqueles dez
anos mais velhos que eu.
Eram
tempos menos cínicos, onde a Internet ainda engatinhava longe de nossas vidas.
Só depois de algumas horas (talvez dias), as imagens de uma emissora de TV
flagrando a flecha caindo por trás da pira, que se acendera automaticamente,
correram o mundo, revelando o que muitos hoje chamam de fraude. Dane-se se caiu
fora. É provável até que o atleta tenha sido obrigado a errar a flechada, por
motivos de segurança. O que importa é o truque e a ilusão emocionante que ele
criou.
Mas, por
mais que as cerimônias de abertura e encerramento tenham os seus muitos
encantos, as Olimpíadas são sobre esportes. Quando convidado a colaborar com
esta série, pensei em várias alternativas. Desde o primeiro evento esportivo do
qual me recordo com alguma nitidez, a final dos 100m rasos de Seul, vencida
pelo trapaceiro Ben Johnson, até o mais recente, a emocionante conquista da
medalha de bronze no pentatlo moderno pela minha conterrânea Yane Marques.
Poderia
falar dos grandes astros que vi em ação, quebrando marcas atrás de marcas, como
Usain Bolt, Michael Phelps, Alexander Popov e Carl Lewis, ou de um que
decepcionou a todos em 1992, o ucraniano Bubka, que batia recordes mundiais
como quem troca de roupa, mas saiu dos Jogos sem medalha, ao derrubar o sarrafo
em suas três tentativas. Poderia também celebrar as vitórias brasileiras, ainda
mirradas em comparação com todo o potencial que temos, convenhamos.
Já é
clichê dizer que o medalhista de bronze sempre parece mais feliz do que o de
prata, que normalmente ainda está sob o efeito da perda do ouro. Felizmente,
existem exceções. Escolhi justamente uma delas. O Brasil chegou a Sydney-2000
com altas esperanças. Vinha de sua melhor campanha na história das Olimpíadas,
após 15 medalhas, três delas de ouro, em Atlanta. A delegação que rumou para
terras australianas era mais forte ainda. Todos apostavam em um desempenho
superior.
Mas o
Brasil caiu do cavalo. Não literalmente, embora Baloubet du Rouet, a famosa
montaria de Rodrigo Pessoa, um de nossos favoritos frustrados, tenha dado
aquela refugada inesquecível. Uma a uma, nossas esperanças de medalha de ouro
foram ficando pelo caminho. Muitas delas ficaram com a prata. Mas nenhuma prata
brasileira brilhou tanto quanto a do revezamento 4x100m rasos, cuja escalação
ficou guardada na memória de muitos, como se fosse aquele time clássico do
nosso clube de coração:
Vicente
Lenílson, André Domingos, Edson Luciano e Claudinei Quirino.
O Brasil
já havia conquistado o bronze nos Jogos anteriores, com Arnaldo Oliveira e o
veterano Robson Caetano (que, inclusive, esteve naquela final com o Ben
Johnson) no lugar de Lenílson e Claudinei. Não era surpresa que subisse ao
pódio em Sydney, pois a equipe apresentava bons resultados com regularidade. Os
atletas treinavam juntos, em Presidente Prudente, e a passagem de bastão era
tratada de forma minuciosa pelo treinador Jayme Netto Jr., que, anos depois,
teria sua imagem manchada, ao ter alguns de seus comandados flagrados no
antidoping.
O degrau
mais alto do pódio já tinha dono, a fortíssima equipe americana, capitaneada
pelo então recordista mundial Maurice Greene, também vencedor da prova
individual dos 100m rasos. A principal ameaça ao time dos EUA eram os
britânicos, mas estes quebraram um galhão a todos os candidatos ao pódio, sendo
desclassificados logo na primeira eliminatória.
Na
semifinal, Cuba fez o segundo melhor tempo e Brasil e Jamaica empataram com a
terceira marca. Não muito atrás, ficaram os japoneses. Os americanos mantiveram
a ponta durante toda a final, enquanto brasileiros e cubanos chegavam
emparelhados ao último trecho, no qual Claudinei Quirino voou baixo para a
conquista da prata. A festa brasileira chamou bem mais atenção que a americana,
envolvendo as bandeiras do país, como manda a tradição, mas também a de
Prudente, quartel-general da tropa.
Durante a
comemoração, um dos atletas pediu que a canção "Catedral", na voz de
Zélia Duncan, acompanhasse as imagens da conquista. Desde então, é impossível
para mim lembrar do ocorrido sem que a música tome de assalto a minha rádio
mental. Da mesma forma que escutá-la e não lembrar daquele momento também se
tornou inimaginável. Considerando que eu continuo achando a música bem enjoada,
é um alento que ela traga sempre boas memórias consigo.
O Brasil
bateria seu recorde de medalhas, 8 anos depois, em Pequim. O recorde de atletas
no ponto mais alto do pódio seria superado mais cedo, em Atenas. Mas o esporte
brasileiro não deu ainda aquele salto que dele se esperava. O recado da corrida
do ouro frustrada de Sydney era claro: precisamos criar mais e mais bons
atletas, para que a responsabilidade não pese sobre os ombros de alguns poucos.
Não que todos os favoritos que ficam pelo caminho sucumbam necessariamente à
pressão, muitas vezes apenas não foram os melhores. Mas a quantidade de atletas
de ponta sempre incidirá diretamente na colheita de resultados expressivos.
O recado
pode ter sido um puxão de orelha, mas a onda de decepções também trouxe um lado
positivo: a prata da equipe do revezamento foi aclamada como a maior conquista
do esporte brasileiro nos Jogos de Sydney. Os rapazes fizeram por merecer.
Afinal de contas, a glória esportiva não se resume àqueles que parecem fazer o
impossível. Também merecem um lugar no Olimpo aqueles que fizeram tudo o que
era possível, servindo de exemplo mais viável para o cotidiano de cada um de
nós.
Confiram a prova que deu ao Brasil a prava no 4x100m rasos do Atletismo.


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