Faltam menos de três anos para as Olimpíadas do Rio de Janeiro. A cidade segue sendo preparada para que as instalações fiquem prontas e os atletas seguem treinando para que o Brasil alcance o sonhado top 10 no quadro de medalhas. Mas, e o que será depois dos Jogos? O assunto acabou permeando as palestras do seminário “2016 é agora”, organizado pelo jornal “O Globo”, na última segunda-feira, no Rio. Dele participaram a presidente da Empresa Olímpica Municipal, Maria Sílvia Bastos, o secretário nacional de esporte de alto rendimento, Ricardo Leyser, e os medalhistas olímpicos Adriana Behar, gerente geral de alto rendimento do COB, e Gustavo Borges.
O fato de o Rio sediar os Jogos sem que o Brasil fosse uma potência olímpica acabou alvo de críticas quando a cidade foi escolhida em 2009. Na teoria, era preciso primeiro investir no esporte de base para então para formar campeões. Os investimentos, porém, têm trilhado o caminho inverso do que o normal, como relatou Ricardo Leyser, que comanda uma pasta com orçamento de R$ 945 milhões para este ano.
"Ganhar os Jogos nos permitiu ter estes recursos. Foi o alto rendimento que permitiu que houvesse investimento no esporte, e a partir daí descer para a base. Aconteceu o caminho contrário do que imaginávamos. Desde 2009 traçamos o objetivo de o Brasil virar uma potência olímpica e ficar entre os 10 melhores no quadro de medalhas, como na economia. Mas nosso objetivo não é só medalha, é fomentar a atividade esportiva."
Com o aporte quase bilionário, o Ministério do Esporte faz convênios com confederações, distribui bolsas atletas e bolsas medalha, e fomenta o esporte. As confederações ainda recebem investimento da Lei Agnelo/Piva – R$ 202 milhões em 2012 – e ainda contam com a Lei de Incentivo ao Esporte – R$ 211 milhões no ano passado. O secretário pegou o exemplo da Jamaica para comparar os objetivos do Brasil. Em Londres, Usain Bolt & cia levaram 12 medalhas, quatro de cada cor, todas no atletismo.
"Não queremos ser só a Jamaica. Queremos ter um número grande de modalidades. Hoje ninguém se surpreende mais com a Yane Marques ficando com a prata em um campeonato mundial de pentatlo moderno ou os atletas juvenis do Brasil vencerem no tênis de mesa. Tínhamos que trabalhar com uma pluralidade de modalidades."
No esporte de base, uma parceria com o Ministério da Educação, o Atleta na Escola, leva o atletismo para 20 instituições públicas de ensino. Chamadas de Centro de Iniciação ao Esporte (CIE), 250 quadras multiuso deverão ser construídas com R$ 830 milhões do PAC 2. Até 2016 cerca de 6.000 quadras de escolas serão cobertas e 4.000 receberão cobertura. E depois de problemas com ONGs e governos estaduais, o programa Segundo Tempo será integrado ao Programa mais educação para atender a 4,3 milhões de alunos.
"A imprensa nos cobra o investimento em esporte de base. Estão aí os números. Nossa maior restrição não é o orçamento, mas a capacidade de gerir estes recursos" – completou Leyser.
Presidente da Empresa Olímpica Municipal, Maria Silvia Bastos pensa de maneira semelhante ao secretário. Segundo ela, há dinheiro para tudo, mas faltam projeto, planejamento e gestão. Quando é perguntada sobre o legado da cidade, a ex-comandante da Companhia Siderúrgica Nacional diz que as mudanças já estão acontecendo, e que não seriam possíveis sem a realização dos Jogos.
"A grande palavra é oportunidade. Queremos que o Rio seja a melhor cidade do hemisfério sul para viver."
A responsabilidade de alcançar o top 10 em 2016 também passa pelo trabalho de Adriana Behar, vice-campeã olímpica em Sydney e Atenas ao lado de Shelda. Para isso, as 17 medalhas em 2012 devem subir para 28 a 30 daqui a três anos. Além de manter o apoio aos esportes que normalmente trazem medalhas, como vela, judô e vôlei, modalidades onde há possibilidade de pódio em curto espaço de tempo estão recebendo apoio. Atletas com potencial estão sendo acompanhados atentamente, com metas estipuladas. Já não há mais tempo de revelar talentos para 2016. Além do crescimento brasileiro, Adriana Behar conta com a queda de países como Estados Unidos e China, que perderam medalhas de 2008 para 2012. Ela ressalta que o trabalho não terminará depois das Olimpíadas.
"Precisamos de projetos bons e que vão chegar a algum objetivo. O que temos neste ciclo olímpico? Quais são os atletas que temos e os projetos fundamentais para que ele alcance uma meta em 2016? Temos que ter foco em algumas modalidades para dar um norte de como poderemos investir. A medalha é só a ponta do iceberg. Nosso grande desafio é mudar o contexto do esporte e que as medalhas sejam o resultado final de um grande esforço. O objetivo é tornar e manter o país como potência olímpica."
Prata em Barcelona 1992, Gustavo Borges trabalha com uma metodologia de ensino de natação. No contato com as crianças, ele acredita que as Olimpíadas no Rio de Janeiro vão estimular a prática do esporte.
"A criança de todo Brasil está vivenciando as Olimpíadas e vai pedir para o pai para matricular em alguma escolinha ou projeto de esporte. Vai começar a criar uma cultura esportiva, um legado tão importante quanto ginásio. O impacto em ter uma cidade sede no país é gigantesco. Só não conseguimos medir isso agora, mas é para 2020, 2024, 2028... Talvez o investimento nos próximos ciclos olímpicos não precise ser tão intenso como o que está sendo feito agora."
Fonte: Leonardo Filipo/Globoesporte.com
Foto: Ivo Gonzalez/O Globo

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