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Com Tupi na camisa, rúgbi brasileiro busca raízes em tribo para o ciclo olímpico





Aos 67 anos, o Pajé Aua Dxitsapa Guaíra dá passos curtos, com a coluna levemente curvada para frente, e parece ter o olhar perdido, como se não visse o que está adiante. Com a mão esquerda, leva seu cachimbo à boca e alterna entre três e quatro tragadas antes de soltar a fumaça para o alto, deixando um cheiro de ervas queimadas em meio ao campo de terra batida.

Quando um ônibus cruza a entrada da aldeia Ywi Pyaú, em Peruíbe, no Litoral Sul de São Paulo, o homem mais velho da tribo observa à distância, enquanto, às suas costas, um grupo de crianças sai em disparada em direção aos visitantes.

E eles descem do ônibus aos poucos, sem pressa, vestidos com shorts curtos e camisas verdes e amarelas, alguns carregando bolas ovais sob os braços. São quase trinta, e todos olham curiosos para um mundo novo, ainda que levem no peito o símbolo daqueles que estão à sua frente.

Por alguns minutos, os grupos permanecem separados. Os índios iniciam uma apresentação de música e dança, observados de longe. Não demora, porém, para que os visitantes se aproximem e comecem a interagir.

Os jogadores das seleções brasileiras de rúgbi, enfim, vencem a timidez. A visita à tribo, uma das que lutam pela sobrevivência da cultura Tupi-Guarani no Brasil, era esperada há algum tempo. Desde 2011, o índio tupi foi escolhido como símbolo do esporte no país, após vencer a arara e a sucuri em votação popular.

Nas próximas competições, com o intuito de repetir os times de outros países, muito ligados às histórias locais, as equipes passarão a levar a imagem indígena no peito. E, com a missão de crescer rumo aos Jogos Olímpicos de 2016, no Rio de Janeiro, os atletas das seleções foram à tribo de São Paulo para aprender mais sobre a cultura e o instinto de luta do povo

Localizada quase à beira da estrada que liga São Paulo às cidades do Litoral Sul, a aldeia Ywi Pyaú (Terra Livre) foi montada há nove anos. O terreno, inicialmente ocupado pelos índios, foi retomado em 2004 após longa negociação com a Funai.

O povo Tupi-Guarani, então, ampliou sua presença por aquelas terras, ganhando gás na luta para manter sua história viva. São cerca de 150 índios morando no local, aberto a turistas, que costumam assistir às apresentações culturais da tribo.

Quando soube que as seleções de rúgbi carregariam o símbolo tupi na camisa, o cacique Awa Tenondguá, de apenas 25 anos, se surpreendeu.

"Para mim, é importante. É divulgar a nossa cultura, o que a gente sabe. É uma riqueza imensa, nossa cultura, os esportes que nós temos. É bastante difícil manter a nossa cultura, a cidade sufoca a gente. Para onde vamos tem cidade. Por mais que seja difícil, tentamos manter nossa língua, nossa dança, nossa espiritualidade. No momento que me telefonaram, fiquei emocionado quando soube que a seleção estava com símbolo que representa nosso povo. Logo disse que seriam bem-vindos. Foi bastante significante para mim. Nosso povo foi o primeiro a sofrer o massacre dos portugueses. Nós batemos de frente, não fugimos. O que nós podemos passar para eles é a determinação, a vontade. Quando um tupi-guarani vai para uma briga, acredita sempre que vai vencer" – disse o cacique.

A vontade de aprender é grande do outro lado. Em todo o mundo, o rúgbi tenta aproximar seus jogadores das culturas locais, como a Nova Zelândia, com os All Blacks e o Haka, dança da tribo Maori, e a África do Sul, com os Springboks, símbolo da equipe e espécie de antílope do país. Um dos destaques da seleção de seven, modalidade que estará presente nos Jogos de 2016, Allan Martins, o Careca, afirma que a história tupi serve de inspiração para a equipe durante os jogos.

"Eu acho que isso está servindo ainda mais de inspiração para nós. Uma coisa é acompanhar os Tupis na escola, outra é conhecê-los, ver as origens e os valores deles. Essa tradição deles, eu tenho certeza que vai nos ajudar ainda mais quando estivermos no campo, jogando em um momento de dificuldade. Pode ter certeza que vai servir de inspiração. É a cara do Brasil, nós temos essa ligação indígena. Para o Brasil, para o rúgbi brasileiro, isso vai fortalecer ainda mais essa base para chegar ao nosso objetivo que é 2016. Eu acho legal, daqui para frente, pegarmos algumas culturas do tupi, não para fazermos um ritual exposto, mas para fecharmos nosso mundo e entrar em campo da melhor forma" - afirmou.

Na visita, os dois lados tentaram passar um pouco de cada cultura. Os índios pintaram os corpos dos jogadores e os ensinaram a usar o arco e flecha e a lutar a Uka-Uka, esportes tradicionais por ali. Os visitantes, por sua vez, organizaram brincadeiras com moradores da tribo e apresentaram alguns dos fundamentos do rúgbi para quem quisesse aprender.

"É gratificante ver isso. Hoje em dia, chegamos perto das pessoas e elas se afastam da gente, dizem que não gostam da nossa atitude. Para nós, é bom saber que tem pessoas que gostam de nós. Nós vemos a alegria deles, e isso transforma a nossa alegria também" – disse Sara Mariano, a Pontaporã, de 15 anos.

Edna Santini poderia se passar facilmente por uma índia local, não fosse o uniforme da seleção. Com a pele morena, o rosto pintado e os cabelos negros e lisos, a jogadora era uma das mais empolgadas com o contato. Segundo ela, também ensinar o rúgbi para quem nunca ouviu falar do esporte é gratificante.

"Ter esse contato, saber algumas coisas, saber a história deles.  Isso vai nos ajudar, essa guerra, a cultura deles. Conseguem brigar para manter a cultura deles, e é o que vamos tentar também. Brigar para levar o Brasil à frente. É diferente. Eles percebem que é um esporte diferente, fazem muitas perguntas. Poder ensinar um pouquinho do que a gente sabe é muito bom."

Se o Tupi representa todas as seleções brasileiras, a equipe feminina encontrou uma lenda específica para abraçar. Segundo a cultura local, Iara era uma índia guerreira, a melhor de sua tribo. Uma noite, porém, seus irmãos, tomados pelo ciúme, tentaram matá-la. Ela conseguiu escapar e acabou matando seus irmãos. Seu pai, que era pajé da aldeia, a jogou no rio, e Iara se tornou uma sereia, abraçada pela natureza. As meninas, então, se identificaram.

"A Iara é uma guerreira que passou por muitas dificuldades por ser mulher e ser uma boa guerreira. E os irmãos tinham ciúmes, planejavam matá-la. E ela, para se defender, teve de matar os irmãos. Mas o pai resolveu jogá-la na água para ver se ela estava errada, e a natureza a acolheu. A gente sabe o quanto é difícil ser mulher, ser uma mulher esportista. As meninas todas se identificaram" – afirmou Julia Sardá, capitã da seleção.

Paula Ishibashi é uma das dez melhores jogadoras do mundo, segundo a eleição da confederação internacional. Ao passar alguns fundamentos do rúgbi para os índios, se surpreendeu com a facilidade de aprendizado deles. Para ela, a disposição que o povo Tupi tem de lutar pelo que quer ajudará a seleção a dar passos maiores no esporte.

"Eles têm uma habilidade muito boa para entender rápido. Eles têm essa aptidão mais física, essas atividades. Essa força deles de lutarem por um pedacinho de terra. Antes, tinham uma imensidão e eles não desistiram. O Brasil, hoje, encara gigantes e não desiste. Nosso momento pode não ser agora, mas não vamos desistir. Somos muito ignorantes em relação à nossa cultura. E hoje aprendemos muita coisa" - afirmou.

Mas, se os jogadores buscam aprender, os índios também se mostram dispostos a entender um pouco mais os costumes do homem branco.  O Pajé Guaíra, filho de pai tupi e mãe guarani, tem a missão de passar a história aos mais jovens da tribo. Mas ele mesmo, aos 67 anos, se abre ao novo e dá as boas-vindas ao esporte que sequer havia ouvido falar.

"O que me ensinaram no passado, eu passo para os mais novos. Estou passando. O idioma, nossa linguagem. E também nosso costume, como lidávamos com as coisas antes de conhecer o branco. É uma coisa que vamos conhecendo mais. Mas, já que estamos no meio do branco, precisamos conhecer um pouco do branco também. Assim como vocês querem conhecer nossa cultura, nós também queremos conhecer a cultura de vocês também. É natural."

Fonte: Globoesporte.com
Foto: João Gabriel Rodrigues

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