A gigante de produtos eletrônicos Sony pediu à Fifa que “investigue
adequadamente” as alegações de corrupção e suborno em torno da
candidatura do Qatar para sediar a Copa do Mundo de 2022. A empresa, que
é uma das seis parceiras oficiais da entidade, disse que espera que a
Fifa aplique seus princípios de “ética” e “integridade” para garantir
que as alegações de corrupção sejam examinadas.
Em uma declaração ao jornal Sunday Times, em relação às acusações
envolvendo o país árabe, a Sony disse que espera que “a Fifa mantenha
seus princípios de ética, integridade e fair play em todos os aspectos
de suas operações”. A empresa, cujo acordo com a entidade movimenta um
valor estimado em US$ 305 milhões (cerca de R$ 685 milhões), coloca
ainda mais pressão sobre o órgão, que tem mantido a discrição em revelar
maiores informações sobre a investigação que está conduzindo sobre o
processo.
A Fifa confiou ao advogado americano Michael Garcia a
tarefa de realizar investigação sobre as candidatura dos mundiais de
2018 (na Rússia) e 2022. Garcia passou mais de um ano viajando pelo
mundo para entrevistar os envolvidos – a um custo de 6 milhões de libras
(quase R$ 23 milhões). Ele deve terminar a apuração no início da
próxima semana, antes de escrever e apresentar um relatório para a nova
câmara decisória da entidade, em julho.
Se a Fifa concluir que
efetivamente houve corrupção, o Qatar pode perder o direito de sediar a
Copa. Em comunicado assinado pelo vice-presidente Jim Boyce, na semana
passada, a entidade afirma que não teria nenhum problema em realizar
nova votação caso realmente haja irregularidades. O presidente Joseph
Blatter falou, por meio do Twitter, que nunca vai ignorar “as
informações da mídia sobre acusações envolvendo a ética no futebol”. Por
outro lado, disse que o comitê responsável precisa de tempo para
investigar adequadamente.
A equipe de candidatura do Qatar disse
que “nega veementemente todas as acusações de má fé e que está
cooperando totalmente com a investigação de Garcia". Em comunicado,
garante que “o Comitê de Candidatura Qatar 2022 sempre manteve o mais
alto padrão de ética e integridade em sua tentativa bem sucedida de
sediar a Copa do Mundo de 2022”.
Sem direito a recurso
Uma investigação do jornal inglês “Independent” apurou que, em 2010, o
Qatar concordou em assinar um contrato que o impede de tomar qualquer
tipo de ação legal contra a Fifa sobre a Copa. Também segundo o jornal,
há um mecanismo disponível para a entidade máxima do futebol em casos de
violação de seu código de ética. Uma autoridade de outro país
candidato, que forneceu material a Michael Garcia e também não quis se
identificar, disse ao jornal que a FIFA terá plena autoridade para
trocar o país-sede.
— A Fifa pode pedir uma nova votação sob um
argumento que garante que, embora possa não haver qualquer ligação
direta entre (Mohamed bin) Hammam (vice-presidente da entidade afastado
por corrupção) e a candidatura do Qatar, faltou integridade ao processo.
E, para justificar isso, a FIFA também poderia usar o fato de que seu
próprio relatório aponta que, numa Copa do Mundo no Qatar, em pleno
verão, quando as temperaturas podem chegar a 50º C, há alto risco. O
Qatar é o único país candidato a ser classificado desta forma — lembrou.
Em
entrevista ao “Independent”, o diretor jurídico de uma das nações que
se candidataram diz que “todos os candidatos tiveram que assinar um
documento no qual concordavam em se vincular ao código de ética da
Fifa”.
Segundo a entidade, todos os casos do tipo passam pelo
comitê de ética. As apelações poderiam ser levadas à Corte Arbitral do
Esporte, em Lausanne, mas o órgão não pode legislar. Desta forma, se a
Fifa quiser eliminar o Qatar e “promover nova votação, o país não poderá
levar o caso à lei suíça”. Para o diretor, “os países estão tão
empolgados em sediar a Copa do Mundo que aceitaram assinar o acordo sem
qualquer problema”.
Quem também se pronunciou foi Diego Maradona:
ao jornal Al-Ittihad, de Abu Dhabi (Emirados Árabes), o ex-capitão
argentino disparou contra figuras que marcaram o futebol mundial e que
têm “cruzado os braços” para o caso. Entre eles, o presidente da Uefa,
Michel Platini Outro alvo foi Blatter, antigo desafeto: o craque disse
que, para o suíço, “o futebol está sujeito apenas aos negócios”.
—
Há muitos subornos na Fifa e temos que pedir explicações dos
responsáveis no que se refere ao assunto do mundial do Qatar — afirmou.
Memória
O
caso estourou após revelações de que Mohamed bin Hammam, à época
vice-presidente da Fifa, supostamente pagou subornos no valor de 3
milhões de libras (mais de R$ 11 milhões) para os administradores de
futebol, ao redor do mundo, para influenciar os votos. Hammam também foi
membro da executiva que deu a vitória ao Qatar sobre EUA, Japão e
Austrália. Ele foi banido do órgão por corrupção,
mas sem relação com o mundial de 2022. Ele teria tentado comprar o voto
de federações do Caribe em sua eleição contra Blatter, que garantiria
ao suíço seu quarto mandato como presidente da entidade.
Mesmo com
bin Hammam fora, a Fifa poderia agora usar este mesmo código de ética
para barrar o Qatar. A cláusula dois do documento diz que “os
funcionários devem mostrar uma atitude ética no desempenho das suas
funções, prometer se comportar de uma forma digna e agir com total
credibilidade e integridade”.
Foto: AFP
Fonte: O Globo

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