O projeto de construção de uma arquibancada temporária sobre
o espelho d’água da Lagoa Rodrigo de Freitas, para dez mil espectadores
assistirem a competições de remo e canoagem de velocidade durante as
Olimpíadas, está na berlinda. Em pé de guerra, moradores da região,
ambientalistas e esportistas querem barrar a ideia. Já o Comitê
Organizador Rio 2016 — responsável pela implantação das instalações a
serem desmontadas após os Jogos — garante que os estudos sobre o que
será construído no local ainda estão sendo feitos. Mas o assunto já
chegou ao Ministério Público estadual, que instaurou inquérito civil
público. A interferência do MP tem justificativa: o espelho d’água da
Lagoa é tombado, por decreto municipal, desde 1990.
Se for executada a proposta conceitual inicial, sobre a
Lagoa repousaria uma plataforma de 250 metros de extensão, para acomodar
a arquibancada de 15 metros de altura, além de uma passarela de 175
metros de comprimento.
A 2ª Promotoria de Justiça de Tutela Coletiva de Defesa do
Meio Ambiente começou a investigar o caso em abril. O órgão ainda
aguarda informações solicitadas ao Comitê Rio 2016, à Secretaria
municipal de Meio Ambiente e ao Instituto Rio Patrimônio da Humanidade.
Foram dois ofícios, sem resposta, para cada um — os últimos enviados em
12 de setembro.
Enquanto o projeto definitivo não é detalhado, sua concepção
virou assunto da reunião do Subcomitê Lagunar da Lagoa Rodrigo de
Freitas (que reúne entidades públicas e da sociedade civil) na
quinta-feira passada. O presidente da Associação de Moradores do Jardim
Botânico, Heitor Weigmann Júnior, estava lá:
— Mais importante é concluir a galeria de cintura em volta
da Lagoa, que ainda recebe muito esgoto. Soube que a estrutura
temporária custará quase R$ 100 milhões e será necessário colocar mais
de 60 estacas.
NECESSIDADE DE ESTUDO AMBIENTAL
Diretora de Meio Ambiente da associação, Vera Maurity complementa:
— Remexer com o fundo da Lagoa pode acarretar a liberação de gases nocivos e provocar mortandade de peixes.
Professor de ecologia da UFRJ e especialista em lagoas,
Francisco Esteves considera preocupante haver tantas perguntas sem
resposta a menos de dois anos dos Jogos:
— Que tipo de material vão usar para construir essa
estrutura? Como será descartado o lixo produzido pelo público? Como
serão os banheiros usados pelos espectadores? Uma plataforma sobre a
água durante meses causará sombreamento, impedindo que a luz solar
chegue ao local e que as algas façam a fotossíntese e liberem oxigênio,
fundamental para os peixes.
Esteves questiona a necessidade de construir a estrutura:
— O trânsito poderia ser desviado, e o público ficaria na
orla da Lagoa para assistir às competições. Desconheço países que tenham
construído deques avançando sobre espelhos d’água para provas
esportivas.
Para o engenheiro civil sanitarista Adacto Ottoni, assessor
de Meio Ambiente do Conselho Regional de Engenharia e Agronomia
(Crea-RJ), um projeto dessa magnitude só pode ser executado após estudo e
licença ambientais:
— Cravar estacas no fundo da Lagoa afetaria o movimento de
circulação hídrica, aumentaria a estagnação da água e o depósito de
lama. Além disso, a propagação de ruído durante a cravação das estacas
pode afetar a biodiversidade.
Ele defende uma solução mais simples:
— Por que não fazer arquibancadas na área continental?
Remadora do Flamengo, Fabiana Beltrame é outra que discorda da obra:
— Não tem sentido montar e desmontar arquibancada. O ideal é
algo que fique após os Jogos. Reformaram a arquibancada do Estádio de
Remo para o Pan de 2007. De lá, o espectador não vê nada. O interessante
é ver os 250 metros finais. O melhor é haver arquibancada na área do
Lagoon (complexo de lazer).
Quanto à segurança e à questão ambiental, Antonio Eulalio
Pedrosa Araujo, conselheiro do Crea e especialista em estruturas, não vê
problemas, se a obra obedecer a normas técnicas:
— O projeto executivo tem de ser precedido de estudos
geológicos e geotécnicos, batimetria e topografia. A arquibancada pode
ser de aço, madeira ou concreto pré-moldado. E o projeto é que vai
indicar a melhor fundação. Poderiam usar estacas metálicas, cravadas no
solo ou em blocos de concreto.
ENGENHEIRO NÃO VÊ DANOS AMBIENTAIS
Segundo Eulalio, o custo da retirada integral das estacas
seria muito elevado. A tendência, diz ele, é cortar e remover só o que
está dentro da água — isso não provocaria danos ambientais:
— Arrancar o que está na lama e na rocha é dificílimo.
O estudo conceitual foi feito em 2008 pela BCMF Arquitetos,
de Belo Horizonte. Ele foi aprovado pelo Comitê Olímpico Internacional
(COI) quando da escolha do Rio para sediar as Olimpíadas. Na época, o
custo foi estimado em R$ 36,6 milhões.
— Não chegamos a detalhar como seria a obra. Mas ela é
perfeitamente exequível de várias maneiras. Poderiam optar por uma
estrutura ancorada ou por fundações — diz Marcelo Fontes, um dos
diretores da BCMF.
O Comitê Rio 2016 afirma que, quando estiver pronto, o
projeto da Lagoa será submetido à avaliação das federações
internacionais de canoagem e remo. Ele argumenta que ainda é cedo para
fazer as instalações temporárias.
A Secretaria de Meio Ambiente se limita a dizer que o
projeto não é objeto de licenciamento do órgão. Já o Instituto Rio
Patrimônio assegura que, quando o projeto for apresentado, será
avaliado. A Empresa Olímpica Municipal, por sua vez, passa a bola para o
Comitê Rio 2016, encarregado de executar as instalações temporárias.
Quanto às intervenções do estado no Estádio de Remo, o
edital para a construção da nova torre de chegada e a reforma da garagem
de barcos, no valor de R$ 4,6 milhões, foi lançado este mês. Até o fim
do ano, sairá a licitação para a instalação do partidor (estrutura de
largada) e de quatro deques flutuantes.
Foto: Divulgação
Fonte: Jornal O Globo

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