O temor de que o Rio não conseguisse atender à demanda por hospedagem
nas Olimpíadas parece superado. Agora o debate em torno da rede
hoteleira carioca recai sobre outra preocupação: diante do aumento da
oferta de acomodações, o desafio é como mantê-las ocupadas depois dos
Jogos. A Associação Brasileira da Indústria de Hotéis no Rio (ABIH-RJ)
afirma que, só este ano, mais de 15 mil novos quartos — 10.500 só na
Barra da Tijuca — ficarão prontos na cidade. Atualmente, a cidade dispõe
de cerca de 34 mil.
Até o fim do ano, deverá ser ultrapassada a meta de 48 mil
acomodações para os Jogos — contra 31,7 mil em 2010, segundo a agência
Rio Negócios. E a previsão é que o Rio tenha 51,1 mil quartos no ano que
vem. Para representantes do setor, o número representa uma nova etapa
na organização dos Jogos, como aquecer o calendário de eventos e ampliar
a atração de turistas, de forma a evitar que os quartos fiquem vazios.
Como ponto favorável, diz Alfredo Lopes, presidente da ABIH-RJ, é
grande o potencial para aumentar o número de visitantes. Ele lembra que o
Brasil recebe, por ano, cerca de seis milhões de turistas
internacionais (34% deles no Rio), enquanto só Paris, na França,
contabiliza 23 milhões. Segundo Lopes, aqui são necessários, sobretudo,
maiores investimento na captação de visitantes em mercados como o
americano, o europeu, o asiático e o árabe.
NOVO CENTRO DE CONVENÇÕES
Para o período
pós-Jogos, diz ele, já há esforços em andamento. Lopes cita a troca de
experiência do setor com representantes de outras sedes olímpicas, como
Barcelona e Sydney. Destaca que o Rio Convention & Visitors Bureau e
a associação buscam espaço para um novo centro de convenções na Zona
Sul — que poderia ficar no terreno do antigo Canecão ou nas proximidades
do Forte do Leme. E, com a consolidação da Barra como novo polo
hoteleiro, Lopes enumera iniciativas de divulgação do bairro, que
receberá grandes parte das instalações das Olimpíadas:
— Embora seja uma região com uma diversidade de restaurantes,
shoppings e praias que os cariocas conhecem, a Barra ainda é uma ilustre
desconhecida do mundo, se comparada com Copacabana e Ipanema. É um
desafio trabalhar a imagem do Rio, mas também a da Barra. Com esse
objetivo, criamos o Fórum de Marketing da Barra e, recentemente, foi
publicado um guia sobre o bairro.
Apesar de mais distante de pontos turísticos como o Cristo Redentor e
o Pão de Açúcar, a Barra é mesmo a aposta de grandes redes
internacionais para oferecer hospedagem de luxo na região. É o caso do
Hilton Hotel Collection, na Avenida Abelardo Bueno, e do Grand Hyatt
Residences, na Avenida Sernambetiba. Novos empreendimentos da rede
Windsor também terão o bairro como endereço. O grupo — que já tem o
Windsor Barra — inaugura até as Olimpíadas mais três hotéis na região
(Windsor Oceânico, Windsor Tower e Windsor Marapendi, com um total de
1.300 quartos), além de um centro de convenções com 25 mil metros
quadrados de salões.
— O que nos motivou foi o fato de acreditarmos muito no potencial do
Rio em todos os tipos de turismo. Os novos empreendimentos já estavam
nos nossos planos, independentemente das Olimpíadas. Mas nossa principal
aposta é na vocação do Rio para o turismo de negócios, do qual São
Paulo ainda fica com uma fatia muito maior — afirma o gerente de
Marketing da rede, Paulo Marcos Monteiro Ribeiro.
Alexandre Sampaio, vice-presidente de Hotéis do Sindicato de Hotéis,
Bares e Restaurantes (SindRio), vê a cidade dividida em três polos
hoteleiros. A Barra, diz ele, concentrará o turismo de eventos; a Zona
Sul, o de lazer; e o Centro, o de negócios. Ele enxerga o atual cenário
para o setor, no entanto, de forma mais pessimista diante da conjuntura
nacional. E aponta como motivos vários fatores: baixo crescimento do PIB
nacional; desempenho ruim de projetos que impulsionariam a economia
fluminense, como o Comperj; aumento do custo da energia elétrica; e
possíveis reajustes de impostos para o setor, entre outros.
— Vamos até superar a expectativa em termos de número de quartos e
hotéis para 2016. Mas isso nos joga numa realidade de curto prazo
problemática, num momento econômico ruim. Corremos o risco, por exemplo,
em caso de superoferta, de queda dos valores das tarifas após as
Olimpíadas — diz.
Pela projeção da Rio Negócios, dos 51,1 mil quartos que devem estar
disponíveis até os Jogos, 36,9 mil serão em hotéis e 14,1 mil, em
aparts, albergues, pousadas e motéis convertidos. O crescimento entre
2010 e 2016 representará 70 novos hotéis, sete deles de cinco estrelas e
25 de quatro estrelas.
Mas, mesmo com esse aumento da oferta, afirma o subsecretário
municipal de Turismo, Philipe Campello, a meta é, após os Jogos, manter a
taxa de ocupação das vagas no Rio acima dos 70% — em 2007, era de
62,9%, chegou a 79% em 2011 e, em 2014, já com uma capacidade instalada
maior, foi de 72,4%.
MAIS EVENTOS PARA A CIDADE
Além disso, o
objetivo é seguir aumentando o número de turistas na cidade. Nos últimos
anos, a quantidade de estrangeiros que visitaram o Rio passou de 1,2
milhão em 2009 para 1,9 milhão em 2014 (os dados ainda não estão
fechados). Já os visitantes nacionais passaram de 5,9 milhões para sete
milhões no mesmo período. E, embora Campello ressalte que ainda é cedo
para se ter estimativas seguras em relação a 2016, ele acredita que as
Olimpíadas possam atrair, no mês dos Jogos (agosto), até 800 mil
turistas à cidade.
Para o período posterior, diz o subsecretário, a estratégia é
trabalhar na captação de eventos (como congressos e feiras) para a
cidade entre 2017 e 2020:
— A Copa do Mundo, que atraiu 886 mil turistas à cidade, foi além até
das expectativas. Nas Olimpíadas, vamos viver momento parecido. É uma
oportunidade única de mostrar o Rio, bonito e competente na realização
de grandes eventos.
A EXPERIÊNCIA EM OUTRAS CIDADES
Embora as
Olimpíadas sejam uma oportunidade de divulgação internacional de suas
cidades-sede, os números do turismo nelas após os Jogos nem sempre são
tão favoráveis. O próprio subsecretário municipal de Turismo, Philipe
Campello, lembra que, muitas vezes, nos anos subsequentes ao evento as
cidades costumam experimentar uma queda na taxa de ocupação dos hotéis.
Ele garante que o Rio tem se preparado nos últimos anos para evitar que o
mesmo aconteça aqui.
Na China, por exemplo, sede dos Jogos de 2008, houve queda de 5% no
número de visitantes nos 12 meses depois das Olimpíadas, como mostra um
relatório da Associação Europeia de Turismo (ETOA, na sigla em inglês).
Mesmo antes da competição, já era possível observar que os prognósticos
mais otimistas não seriam cumpridos: em julho (os Jogos foram em
agosto), ainda era possível encontrar muitas vagas nos hotéis. Uma das
razões apontadas pelos organizadores foi a dificuldade para se obter
visto de entrada no país. Especialistas do setor acrescentam que o
aumento nos valores das tarifas hoteleiras também ajuda a explicar o
problema.
Sydney, na Austrália (2000), viu dez grandes hotéis fecharem depois
dos Jogos. E Barcelona (1992), considerada um exemplo em legado
olímpico, demorou quatro anos para retomar os níveis de ocupação
hoteleira anteriores ao evento. Mesmo assim, a cidade espanhola é citada
como exemplo pelo presidente da Rio Negócios, Marcelo Haddad:
— Teremos o número de quartos necessário à demanda para os Jogos de
2016. Nossa ambição, no entanto, é engajar as empresas do setor de
turismo para articular como aproveitar esses ativos, equivalentes aos de
cidades como Barcelona.
Foto: Pablo Jacob/O Globo
Fonte: O Globo

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