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Advogado da USADA detalha caso Armstrong e crê que Jogos Rio 2016 serão um dos mais limpos da história


A luta contra a dopagem no esporte é travada em várias frentes. Uma das principais é a difusão de informação, de modo que atletas, técnicos e outros profissionais envolvidos em atividades esportivas possam conhecer os riscos do uso de substâncias e métodos proibidos e, assim, as competições possam ser mais limpas.

Entretanto, as campanhas educativas e os testes antidopagem realizados dentro e fora das áreas de competição não são os únicos pilares dos trabalhos a que a Autoridade Brasileira de Controle de Dopagem (ABCD) se dedica. É preciso, também, identificar e punir aqueles que produzem e distribuem substâncias ou métodos proibidos. E é aí que os trabalhos de inteligência se tornam fundamentais.

Realizado entre 12 e 14 de abril, em Brasília, o I Fórum ABCD de Inteligência Antidopagem reuniu representantes de diversas organizações nacionais e internacionais que atuam no setor de inteligência. Estiveram presentes, além de profissionais de entidades brasileiras, como a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) e a Agência Brasileira de Inteligência (Abin), convidados ligados à Agência Antidopagem dos Estados Unidos (Usada), à U.S. Homeland Security, à Polícia Judiciária de Portugal, à Guarda Civil Espanhola, à Agência Antidopagem da China (Chinada), à Agência Antidopagem do Reino Unido (UKDA) e ao Centro Canadense pela Ética no Esporte (CCES, em inglês), além do Comitê Olímpico Internacional (COI).

O evento discutiu e apresentou diversos casos bem-sucedidos de operações que culminaram no desbaratamento de grupos ou indivíduos que trabalhavam na produção e distribuição de substâncias ou métodos proibidos no esporte.

Um dos palestrantes, William Bock, da Usada, falou sobre um dos casos mais importantes da história das operações antidopagem, que envolveu, entre outros, o ex-ciclista Lance Armstrong.

Sete vezes campeão da Volta da França e um dos atletas mais famosos do mundo na década passada, Lance perdeu todos os títulos da Volta da França (competição mais importante do mundo no ciclismo de estrada) e foi banido do esporte depois que as investigações provaram que ele participou, por anos, de esquema sistemático de dopagem em sua equipe.

Ao fim do processo de investigação, Lance, que por anos havia negado o uso de substâncias e métodos ilegais, confessou ter se dopado em uma entrevista à apresentadora americana Oprah Winfrey.

“O que o caso Armstrong fez foi demonstrar para muita gente do esporte e das entidades antidopagem a importância da investigação, que é um dos tópicos que viemos discutir aqui no Brasil”, explicou Bock, um dos conselheiros da Usada.

“Acredito que esse caso mostrou a toda a comunidade que atua no campo da antidopagem a necessidade de não se atacar a dopagem apenas através da educação ou da ciência, com os testes. É preciso também combinar esses fatores com um terceiro, que é a inteligência, as investigações”.

William Bock destacou a importância da colaboração de diversos agentes no caso Armstrong e como o impacto refletiu na maneira de as pessoas encararem o assunto. “Algumas evidências do caso Armstrong foram obtidas através de cooperações com instituições policiais de outros países. Portanto, houve um aspecto de cooperação global.

Obviamente, Lance Armstrong era um dos atletas mais conhecidos do planeta e o fato de que ele tinha conseguido se dopar com sucesso e por um longo período surpreendeu muita gente. Então, o caso teve notoriedade. E isso forçou as pessoas a se defrontarem com questões do tipo: como ele conseguiu fazer isso por tanto tempo? Como ele eventualmente foi descoberto? O que isso significou para o futuro do sistema?

Esse caso foi um ótimo aprendizado e abriu a mente das pessoas para o fato de que a gente precisa desse terceiro componente, que é a inteligência, nas ações antidopagem”.

Ciclismo e outros esportes


Em seu livro, lançado no Brasil sob o título “A Corrida Secreta de Lance Armstrong – Nos bastidores do Tour de France: Doping, armações e tudo o que for preciso para vencer”, o ex-ciclista profissional dos Estados Unidos Tyler Hamilton – que integrou a equipe US Postal Service, de Lance Armstrong, e foi campeão olímpico de contrarrelógio em Atenas 2004 – narrou com detalhes como funcionava o esquema profissional de dopagem não só em sua equipe, mas em praticamente todos os times de ponta do ciclismo de estrada que competiram na Volta da França e em outras competições relevantes da modalidade.

As revelações de Hamilton, que perdeu seus títulos, devolveu a medalha de ouro olímpica e foi banido do esporte, tiveram importância crucial no desfecho do caso Armstrong. Mas também atingiram em cheio a credibilidade do ciclismo profissional por escancarar a maneira inadequada como o esporte era conduzido.

“O ciclismo é um dos esportes que chamamos de alto risco, porque existe um grande benefício que pode ser obtido através da dopagem”, ressaltou William Bock. “Além disso, é um esporte no qual existe uma clara razão econômica para se dopar. Esses fatores combinados são tentadores. Aí, você combina isso com a situação de dentro do ciclismo, que é a que a UCI (Federação Internacional de Ciclismo) agora está conseguindo reverter ao conduzir investigações, e você tem a ‘tempestade perfeita’ para uma forte cultura de dopagem dentro do esporte”.

Indagado se em outros esportes existem esquemas de dopagem tão profissionais quando o operado no ciclismo na década passada, Bock explicou que é preciso estar atento a aspectos que colocam determinadas modalidades mais em evidência do que as outras.

“Quando você observa os esportes e tenta descobrir quais os que têm mais chances de dopagem, você deve olhar alguns fatores. Um é se existe muito dinheiro envolvido. Isso vai criar incentivos para a dopagem. O segundo é observar quais as qualidades físicas são atribuídas a esse esporte. Se ele é de resistência, então EPO (hormônio proibido Eritropoietina) ou dopagem de sangue podem ser problemas. Se ele é de força ou velocidade, temos de estar atentos aos esteróides. Mas também existe um terceiro fator, que é o quão efetivamente esse esporte está tentando se previnir contra a dopagem. Você pode ter um esporte que tem altas chances de dopagem e ter baixas taxas (de casos positivos) caso as entidades envolvidas façam um bom trabalho e as pessoas acreditem que vão ser apanhadas. Então, temos uma boa ideia sobre quais esportes têm as maiores chances de dopagem e tentamos concentrar nossos recursos para testar esses atletas e conduzir investigações nesses esportes”, disse.

Bock aproveitou para elogiar a atitude de Tyler Hamilton e a importância que suas revelações tiveram em prol de um esporte mais limpo. “Não é fácil confrontar os erros feitos no passado. É preciso caráter para fazer isso. E ao fazer isso, ao falar claramente sobre sua própria dopagem e sobre o esquema na US Postal Service Team, acho que Tyler deixou um grande legado. Ao estar disposto a sair pelo mundo e falar com os atleta mais jovens sobre o quão importante é dizer a verdade e competir limpo, ele presta um enorme serviço”.

Novas substâncias e Rio 2016

Desde sempre, um dos principais desafios da luta antidopagem é identificar as novas substâncias ou métodos usados pelos atletas. Apesar disso, William Bock crê que o esporte hoje vive um período mais limpo do que em outras décadas.

“Existem novas substâncias que estão chegando ao mercado a toda hora. Essa conferência discutiu os peptídios (hormônios), que são relativamente novos. Estamos desenvolvendo testes para essas substâncias, mas são numerosas. Há também novos tipos de dopagem de sangue que estão se tornando disponíveis. Então, temos um esforço constante para nos manter atualizados sobre essas novas tecnologias e os novos avanços científicos que muitas vezes são usados em processos de dopagem. Mas ainda assim acredito que estamos em uma época mais limpa. Mas temos que estar sempre atentos”.

Sobre os Jogos Rio 2016, o representante da Usada se mostrou confiante de que as competições devem ter pouquíssimos casos de dopagem. “Acredito que os Jogos do Rio podem figurar entre os mais limpos de todos. Acho que a formação da ABCD e o tremendo progresso que ela tem conseguido é um ótimo sinal. Ainda temos pouco mais de um ano para os Jogos e isso requer um grande esforço na preparação e uma forte parceria entre a ABCD, as forças policiais e outras agências do governo para implantar um agressivo programa de testes fora dos períodos de competição até os Jogos. E também será preciso um grande compartilhamento de informações antes e durante o período de Jogos para que o Brasil possa deixar como um dos legados o fato de ter tido um dos Jogos mais limpos de todos os tempos. Tenho visto o trabalho do Marco Aurélio Klein (secretário nacional para a ABCD) e de sua equipe e se todo esse entusiasmo for compartilhado pelos outros parceiros acredito que esses serão os Jogos mais limpos de todos”.

Testes fora de competição


Apesar de acreditar que os Jogos Rio 2016 serão extremamente limpos, William Bock alerta para o fato de que o sucesso do evento nesse campo depende do trabalho que será realizado anteriormente.

“Os testes fora de competição são cruciais para o sucesso das campanhas antidopagem e na detecção de substâncias proibidas. Testes durante as competições são essenciais, mas você tem que ser estúpido para vir ao Brasil e usar substâncias ilegais durante o período dos Jogos. Haverá testes intensivos aqui, como tem que ser. Mas um atleta pode usar substâncias que terão efeito no Brasil muito antes de chegar aqui. Então, a chave é como fazer para impedir que os atletas usem essas substâncias antes”, detalhou.

“Isso é feito com testes fora da época de competição e com o compartilhamento de informações de inteligência, observando a performance dos atletas, seus perfis sanguíneos e promovendo testes com pessoas sob as quais recaia algum tipo de suspeita. E também é importante obter informações sobre as redes que estão fornecendo essas substâncias aos atletas antes que eles cheguem ao Brasil. É nisso que estamos focados.”

Fonte: brasil2016.gov.br

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