Na quinta-feira (13) quando for dada a largada para a prova
dos 1.500m para atletas deficientes visuais da categoria T11, uma cena
de viés retrô pode pegar alguns brasileiros de surpresa. Ao lado da
norte-americana Ivonne Mosquera-Schmidt estará o último campeão olímpico
brasileiro em provas de pista. Medalhista de ouro nos 800m nos Jogos de
Los Angeles, em 1984, e prata quatro anos depois, em Seul, Joaquim
Cruz, hoje aos 52 anos, será o guia da atleta americana.
A decisão foi tomada por obra de imprevistos. Dois guias dos Estados
Unidos tiveram problemas na emissão de passaportes. Como mantém um ritmo
de treinos e a forma física na academia onde é técnico da equipe
americana, Joaquim Cruz achou que dava para embarcar no desafio. Dedicou
os últimos meses à preparação e disse, em coletiva de imprensa nesta
sexta-feira, em Toronto, estar pronto para o desafio.
"Como sou um treinador dinâmico, nunca mando meu atleta para casa se o
guia dele falta. Eu prefiro eu mesmo guiá-los. Fiz isso com o David
Brown e a Ivone faço de vez em quando, quando precisa", afirmou Joaquim
Cruz.
Ritmo "macio"
A idade acima dos 50 anos, segundo ele, não será empecilho. "O fato
de eu ter mantido minha forma, de ter mantido minhas corridas diárias,
ajuda. E o ritmo da Ivone é um pouquinho mais macio, mais lento do que
posso fazer, ou pelo menos assim espero", brincou, provocando risadas da
atleta.
"É complicado, porque o objetivo é fazer com que ela fique mais
rápida e, ao mesmo lado, como guia, tomara que ela não vá muito mais
rápido do que posso guiar", afirmou o fundista, que também tem no
currículo dois ouros em Jogos Pan-Americanos, conquistados em
Indianápolis, nos EUA, em 1987, e em Mar del Plata, na Argentina, em
1995.
A diferença de altura entre os dois é um outro detalhe a ser
ajustado. Joaquim Cruz tem 1,87m, enquanto Ivonne Mosquera, de 38 anos,
tem 1,52m. "Não vou pensar muito no que poderá acontecer. Vou estar
preparado", afirmou o atleta, que em seguida listou, em tom de
brincadeira, as diferenças entre guia e técnico.
"O guia participa direto. Faz as corridas com o atleta, os chamados
longos, os aquecimentos, as corridas intervaladas. Já o treinador é
aquele gordinho que fica ali só dando ordem e marcando o tempo, que
seria o meu trabalho", afirmou.
Mosquera, por sua vez, se apega a uma filosofia de vida que aplica
diretamente ao esporte. "Nunca deixe uma deficiência, uma dúvida sobre
você mesma ou uma energia negativa ficar no caminho para alcançar os
seus sonhos e objetivos", disse, em entrevista com Comitê Paralímpico
dos Estados Unidos.
Foto: Brasil 2016

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