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Opinião: Como a vida dupla do quadro de medalhas afeta a meta do COB para 2016


Quanto mais as Olimpíadas do Rio de Janeiro se aproximam, mais você deve estar lendo e ouvindo por aí que o COB tem como grande objetivo para 2016 figurar no top 10 do quadro de medalhas e que, para isso, subir ao pódio em 27 disputas tende a ser o suficiente. O que de relance parece uma meta só e das mais razoáveis, para mim soa como uma "promessa de campanha" dúbia e bem menos ousada do que pode parecer a princípio.

Oficialmente, o COI declara ser contra o ranqueamento de países por número de medalhas conquistadas. Sim, é isso mesmo que você leu: não existe, ao menos para a entidade que organiza os Jogos, um quadro de medalhas. Na teoria, tudo é muito bonito. Como a intenção do evento é o congraçamento entre povos e o importante é competir (embora o verdadeiro lema olímpico seja o para lá de competitivo "Citius, altius, fortius"), não há por que criar uma disputa extra entre nações e abrir espaço para o surgimento de animosidades, não é?

Trata-se de um ideal romântico, mas que não combina em nada com o que se tornaram os Jogos Olímpicos, tenha você "ódio eterno ao esporte moderno" ou não. É natural do ser humano criar rankings e a prática pode ser bastante divertida, desde que você não a leve a sério demais, a ponto de estragar a brincadeira. Se tem gente que é capaz de ranquear obras de arte ou até mesmo pessoas, sem que essas nem tomem conhecimento de que estão se enfrentando, por que não traçar um parâmetro de qual país foi mais bem sucedido em uma competição esportiva, onde ganhar e perder é parte do processo? Tanto é natural, que alguém teve a ideia de criar o quadro de medalhas. Provavelmente, um membro da imprensa (sim, os jornalistas sempre gostaram de ver o circo pegar fogo). A invenção pegou e está aí até hoje.

O quadro tradicional, ainda que não oficial, é aquele definido pelo número de medalhas de ouro conquistadas por cada país. As pratas servem como desempate e os bronzes também, caso os países tenham o mesmo número de títulos e vice-campeonatos olímpicos. Desde que eu me conheço por gente (e vale dizer que essas serão as sétimas Olimpíadas que acompanharei com atenção, ainda que eu consiga lembrar da histórica e suja final dos 100m rasos de Seul), é o padrão utilizado pela imensa maioria dos jornais e emissoras de televisão, isso se não forem todos.

Também na Internet (que se popularizou certo tempo depois que eu me conheci por gente), mesmo os sites oficiais de cada edição do evento optam por este modo de apresentação. Apresentação e não necessariamente ranqueamento, já que você pode escolher ordenar os países pelo total de medalhas mediante um simples clique. O site de Londres 2012 já não existe mais, mas foi devidamente arquivado aqui. Note que na contagem de medalhas, os 17 pódios a mais dos russos não batem os quatro ouros a mais conquistados pelos anfitriões. Talvez já para fugir de tal controvérsia, o site oficial do Movimento Olímpico oferece uma busca por medalhistas de cada edição dos Jogos, mas evita destacar o quadro de medalhas de cada uma.
 
 "Malandro é malandro e mané é mané"
 
 
 Ao não tomar partido da melhor forma de ranquear o desempenho dos países participantes a cada edição dos Jogos, o COI acabou criando um imbróglio sem fim. No final das contas, cada um acaba escolhendo entre usar o total de medalhas ou o número de medalhas de ouro por conveniência própria. Um problema que não incomodou durante muito tempo, quando quem ganhava mais medalhas normalmente também levava mais das douradas para casa. Apesar de que, já na primeira edição dos Jogos da Era Moderna, os EUA levaram um ouro a mais que os gregos e subiram ao pódio significativas 26 vezes a menos.

Mas, a partir do momento em que o investimento financeiro em busca de boas campanhas olímpicas foi aumentando, as discussões começaram a ficar mais acirradas. Quando interessa, alguns Comitês Olímpicos e veículos de comunicação invertem a forma de apresentação do ranking. Por exemplo, na TV americana, o total de medalhas virou subitamente o mais importante, assim que a China se colocou na frente dos Estados Unidos em número de ouros nas Olimpíadas de Pequim. Nos Jogos de Inverno de 2010, disputados em Vancouver, valeu a mesma lógica, já que o Canadá teve menos pódios no total, mas dois ouros a mais que o vizinho de baixo.

Imaginemos o seguinte cenário: o Brasil conquista 27 ou até mais medalhas no Rio, mas nenhuma delas é de ouro. No site oficial, e na mídia do mundo inteiro, o Brasil aparece abaixo da 50ª posição no quadro de medalhas, por mais extraoficial que ele seja. Paradoxalmente, um sentimento de frustração acompanhará uma meta atingida. A mídia e o público em geral pegariam pesado com o COB, que talvez nem se sentisse à vontade para comemorar o objetivo alcançado. E não é uma questão de ser pessimista. Pode acontecer o inverso também. O Brasil nem chega a dez medalhas, mas oito ou nove são de ouro, colocando-o à frente de países que conquistaram 20, 25 medalhas a mais. O COB considerará um fracasso não ter sido um dos dez países com maior número de medalhas conquistadas? Ligará por ter menos pódios em casa que Belarus ou Irã? Sem contar a possibilidade bastante remota de que os países mais fortes concentrem ainda mais medalhas, o Brasil nem bata seu próprio recorde de pódios em uma só edição e ainda assim entre no top 10 pelo total de medalhas.

Por isso, considero a meta estipulada pelo COB altamente capciosa. Embora seja, ao mesmo tempo, uma meta bastante realista. Tendo por base os atletas que temos hoje em dia entre os cinco, seis melhores do mundo em suas provas, todo o investimento feito neles para este ciclo olímpico e o "fator casa", é plenamente possível chegar às tais 27 medalhas. Mas o ideal seria estipular objetivos que dependessem o mínimo possível da variação de medalhas alheia, para o bem e para o mal. No Pan de Toronto, por exemplo, a missão era ficar no top 3 e o Brasil ficou, o que aconteceu muito mais por uma queda considerável no desempenho de Cuba.

Estipular só um número de medalhas, ou ainda um certo número de medalhas de ouro, seria mais honesto e produtivo do que falar em top 10. Ainda mais quando os critérios podem ser manipulados ao gosto do freguês, como demonstrado parágrafos acima. Gosto quando o COB fala em medalhar em mais modalidades do que de costume, o que seria uma meta muito mais interessante. Isso tudo sem entrar no mérito de que, mais importante do que enfileirar pódios em 2016, é criar uma base para que o esporte cresça de forma sustentável no país, o que, consequentemente, geraria maiores chances de medalhas a médio e longo prazo.

Penso que uma medalha de ouro valer mais do que quinhentas de bronze é um absurdo. Mas negar o peso maior de uma conquista olímpica também o é. Do contrário, ninguém torceria tanto para que um atleta do seu país conquistasse o ouro em uma final no mano a mano, já que a prata teria exatamente o mesmo peso em um quadro de medalhas, ou na meta de seu Comitê. O ideal mesmo seria criar uma pontuação para cada metal, fazendo com que um ouro valha sempre mais do que uma prata, mas não necessariamente mais do que três, cinco ou sete delas. Mas para uniformizar esse critério de ranqueamento, precisaríamos que o COI descesse do muro e abraçasse a ideia, para não deixar dúvidas ou brechas. O importante é competir, mas não há nada de errado em querer chegar na frente dos coleguinhas.

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