2022 foi o ano de Rebeca Andrade. Em novembro, ela colocou o Brasil no topo do mundo da ginástica artística. Era um título emblemático, se tratava da primeira vez que uma brasileira conquistou a honra de atleta mais completa da modalidade, e ainda por cima teve como palco Liverpool. Sob aplausos dos ingleses na cidade dos Beatles, o mundo se rendeu ao solo cuja trilha era um funk intitulado como Baile de Favela.
Rebeca Andrade já havia conquistado medalha olímpica em Tóquio no ano passado. A medalha de ouro na disputa do salto poderia também ter se repetido na disputa do individual geral, não aconteceu, veio a prata, e o posto de atleta mais completa do mundo teria que esperar mais um pouco. E por que não em solo inglês? Que semanas à frente estaria a frente de uma campanha contra os brasileiros por “dançar” na copa do mundo de futebol.
A ginasta nunca escondeu que tem em Daiane dos Santos uma grande inspiração. A ginasta e mulher negra que encantou o mundo com o “Brasileirinho” nos anos 2000, foi o modelo que a menina de Guarulhos seguiu para vencer na ginástica e na vida. Não à toa, desde que começou no esporte ganhou o apelido de "Daianinha de Guarulhos" e se tornou a grande aposta da modalidade.
O ouro olímpico conquistado por Rebeca em Tóquio é coletivo, uma evolução do Brasil no esporte. É a vez de Rebeca dar continuidade ao legado de Daiane, de Daniele, de Jade e ser o modelo a ser seguido. A medalha olímpica de Daiane não veio, mas a dança e os saltos nos campeonatos mundiais forjaram o caráter de uma geração. A batida do funk tão presente nas favelas brasileiras agora faz parte da história da Ginástica, assim como o Duplo-Twist-Carpado de Daiane.
O "Baile de Favela" foi usado por Rebeca pela primeira vez em 2019 durante a etapa de Stuttgart da Copa do Mundo. Após os quatro anos do ciclo, Rebeca se despediu do funk de MC João orgulhosa do trabalho realizado, de saber do reconhecimento da música, da coreografia, e das vitoriosas apresentações. A única certeza é que em 2023, o solo de Rebeca Andrade ganhará um novo ritmo e uma série que seja também representativa ao povo brasileiro.
Em 2022, o brasileiro viu sua dança incomodar o mundo dos caretas e sofrer uma tentativa de ser silenciada. Vinícius Júnior foi duramente criticado por seu jogo ousado no futebol espanhol e o “Baila Vini” tomou as redes num grito de identidade nacional. As comemorações ensaiadas pelos brasileiros, nos gols assinalados durante a Copa do Catar, foram reprovadas e amaldiçoadas por ex-jogadores ingleses e até alguns de nós caímos nessa armadilha. Dançar não deveria ser um problema, nem em Liverpool e nem no Brasil.
Dez anos antes, em 2012, Rebeca que hoje palestra sobre “motivação em meio a adversidades” encarava o seu primeiro campeonato como profissional e aos 13 anos tornou-se campeã do Troféu Brasil de Ginástica Artística, superando ginastas de renome no cenário nacional, e referências dentro da modalidade como Jade Barbosa e Daniele Hypólito.
Rebeca Andrade seguiu o roteiro de vários atletas no Brasil. Dificuldades financeiras sendo superadas por uma rede de apoio em torno da atleta, por sua dedicação e sua resiliência. Em pouco tempo, a perseverança de Rebeca e sua família eram reconhecidos e ela já estava no grupo de alto rendimento, competindo estadual, brasileiro e até mesmo torneios internacionais.
Com grandes conquistas aumentam também as responsabilidades e quase ninguém passou ileso ao pleito eleitoral de 2022. Rebeca foi criticada por curtir postagens em alusão aos ataques a democracia e como a campeã que é se desculpou, agradeceu ao alerta e se colocou a disposição para responder os questionamentos que surgiram aos seus “princípios e pelo que acredita como mulher preta e mulher cidadã”.

1 Comentários
Rebeca voou esse ano!! Ainda vai nos dar muitas alegrias!
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